Por: Dr. João Paulo, Médico Nutrólogo | Goiânia, GO
Mulheres acima dos 40 anos representam um dos públicos mais negligenciados pela medicina. É comum ouvirem que o cansaço excessivo, o ganho de peso súbito, as alterações de humor, a dificuldade para dormir e a queda de libido são coisas que ‘fazem parte da idade’ e que é preciso simplesmente aceitar. Na minha prática clínica, acompanhando de perto pacientes nessa transição, incluindo a minha própria esposa, o que percebo é que ainda há muito a oferecer para essas mulheres, mas que o acesso a um cuidado médico verdadeiramente integral ainda é raro. Segundo guidelines europeus atualizados em 2024, a terapia hormonal da menopausa permanece como o tratamento mais eficaz para os sintomas da transição menopáusica, com indicação geralmente favorável para mulheres sintomáticas abaixo de 60 anos ou dentro dos primeiros 10 anos após a menopausa, desde que personalizada. Neste artigo, explico o que acontece no corpo durante a perimenopausa e a menopausa, quais sintomas merecem avaliação médica e o que um acompanhamento médico individualizado, com olhar nutrológico, pode fazer por essa fase da vida.
O que é a perimenopausa e quando ela começa
A perimenopausa é a fase de transição que antecede a menopausa. Durante esse período, os ovários começam a reduzir gradualmente a produção de estrogênio e progesterona, processo que pode começar já aos 40 anos e costuma durar entre 2 e 10 anos. A menopausa em si é definida clinicamente como a ausência de menstruação por 12 meses consecutivos.
O que torna a perimenopausa desafiadora é que os sintomas aparecem antes de qualquer alteração nos ciclos menstruais, e muitas mulheres não associam o que estão sentindo a uma mudança hormonal em curso. Elas consultam cardiologistas pelo coração acelerado, psiquiatras pela ansiedade, nutricionistas pelo peso que não muda, e nenhum dos especialistas olha o quadro como um todo.
É exatamente aí que reside a maior falha do modelo médico convencional nessa fase: a fragmentação. A mulher é direcionada de especialista em especialista, enquanto o que ela precisa é de um médico que avalie o quadro completo e trate a causa, não apenas os sintomas isolados.
Os sintomas da transição menopausal: o que esperar

A queda dos hormônios ovarianos, especialmente o estrogênio, desencadeia um conjunto de manifestações que variam em intensidade de mulher para mulher:
Sintomas Vasomotores
Os famosos calores e ondas de calor (fogachos) são os sintomas mais conhecidos. Ocorrem pela instabilidade do termostato hipotalâmico, que regula a temperatura corporal, em resposta à queda de estrogênio. Podem acontecer várias vezes ao dia, incluindo à noite (sudorese noturna), interferindo no sono e na qualidade de vida.
Distúrbios do Sono
A dificuldade para adormecer, o sono fragmentado e o despertar precoce são comuns na transição menopausal, agravados pelas sudoreses noturnas e pelas alterações de melatonina que acompanham a queda hormonal. O sono de má qualidade, por sua vez, compromete o metabolismo, o humor e a função cognitiva, criando um ciclo que precisa ser interrompido.
Alterações de Humor e Função Cognitiva
Irritabilidade, ansiedade, humor instável e a sensação descrita por muitas mulheres como “névoa mental” (brain fog) são sintomas frequentes na perimenopausa. O estrogênio tem papel neuroprotetor e atua na regulação de serotonina, dopamina e noradrenalina, neurotransmissores diretamente ligados ao humor e à cognição.
Mudanças na Composição Corporal
Ganho de gordura abdominal, perda de massa muscular e redução do metabolismo basal são consequências metabólicas da queda de estrogênio. Mulheres que antes mantinham o peso com facilidade passam a ganhar sem mudar hábitos, especialmente na região da cintura. Esse padrão de redistribuição de gordura também está associado a maior risco cardiovascular e metabólico.
Sintomas Geniturinárias
Secura vaginal, desconforto durante a relação sexual, urgência urinária e infecções urinárias recorrentes fazem parte de um conjunto chamado síndrome geniturinária da menopausa. São sintomas frequentemente subestimados pelas próprias mulheres e pelos profissionais de saúde, mas que têm tratamentos eficazes disponíveis.
Tratamentos disponíveis para a menopausa

Terapia de Reposição Hormonal (TRH)
A terapia de reposição hormonal é o tratamento mais estudado e com maior nível de evidência para os sintomas da transição menopausal. Utiliza estrogênio isolado ou combinado com progesterona (ou progestágeno sintético), dependendo do histórico da paciente e de fatores individuais de risco e benefício.
As vias de administração incluem comprimidos orais, adesivos transdérmicos, géis, implantes subcutâneos e formulações vaginais para sintomas locais. Cada via tem um perfil diferente de absorção, impacto metabólico e conveniência, e a escolha deve ser individualizada.
O timing da reposição também importa, estudos recentes reforçam o conceito de “janela de oportunidade”: iniciar a TRH nos primeiros anos após a menopausa ou durante a perimenopausa sintomática está associado a melhor benefício cardiovascular e neuroprotetor do que iniciar mais de 10 anos após a menopausa.
Abordagem Nutricional e Metabólica
Mudanças alimentares direcionadas para reduzir a resistência à insulina, controlar inflamação e preservar massa muscular fazem parte de qualquer protocolo de saúde feminina na menopausa. A nutrologia tem um papel central nessa fase ao integrar alimentação, suplementação baseada em exames e manejo das condições metabólicas associadas.
Alimentos ricos em fitoestrógenos, como soja, linhaça e grão-de-bico, são frequentemente pesquisados por mulheres que buscam alternativas à TRH. Os estudos sobre eficácia dessas fontes para sintomas vasomotores mostram resultados modestos e variáveis, sendo inadequados como substitutos da terapia hormonal em casos de sintomatologia moderada a severa, mas podendo complementar o protocolo em determinados perfis.
Suplementação Individualizada
Dependendo dos resultados dos exames laboratoriais, a suplementação de vitamina D, magnésio, cálcio, ômega-3 e outros nutrientes pode fazer parte do protocolo. A suplementação indiscriminada, sem exames que a justifiquem, é tão problemática quanto a ausência dela. O ponto de partida é sempre a investigação.
Atividade Física
Exercícios de força são especialmente importantes na menopausa pela capacidade de preservar e aumentar massa muscular, melhorar a sensibilidade à insulina, fortalecer a saúde óssea e contribuir para o equilíbrio emocional. A combinação de musculação com atividades aeróbicas produz benefícios abrangentes que nenhuma outra intervenção isolada replica.
Quando consultar um médico para sintomas da menopausa
Alguns sinais indicam que é hora de buscar avaliação médica especializada:
- Fogachos frequentes que perturbam o sono ou a rotina diária
- Ganho de peso abdominal inexplicado ou mudança na composição corporal
- Alterações de humor persistentes, ansiedade ou sintomas depressivos
- Dificuldade de concentração ou memória mais intensa do que o esperado para a faixa etária
- Queda de libido ou desconforto durante a relação sexual
- Ciclos menstruais irregulares após os 40 anos
- Dúvidas sobre se a terapia hormonal é adequada para o próprio caso
O médico com foco em saúde metabólica tem capacidade de avaliar o quadro hormonal e metabólico de forma integrada, solicitando os exames necessários, construindo um protocolo individualizado e acompanhando a paciente ao longo da transição com ajustes baseados na resposta clínica e laboratorial.
Perguntas frequentes sobre menopausa e tratamento hormonal
A terapia hormonal da menopausa aumenta o risco de câncer de mama?
O tema tem histórico de desinformação amplificado por um estudo dos anos 2000 que foi amplamente revisado desde então. A posição atual das principais sociedades médicas, incluindo a North American Menopause Society (NAMS) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), é que o risco associado à TRH, quando há, é pequeno, comparável ao de outros fatores de estilo de vida, e que os benefícios para mulheres sintomáticas na janela terapêutica adequada superam os riscos na maioria dos casos. A avaliação individualizada por médico experiente é essencial.
Qual é a diferença entre menopausa precoce e menopausa normal?
A menopausa antes dos 40 anos é chamada de menopausa precoce ou insuficiência ovariana prematura e exige abordagem diferente, pois nessa faixa etária os riscos da deficiência hormonal prolongada (cardiovascular e ósseo) são maiores. A menopausa entre 40 e 45 anos é classificada como precoce, e acima dos 45 como normal. A média de ocorrência no Brasil é em torno dos 51 anos.
Posso fazer terapia hormonal se nunca tive filhos?
Sim. A indicação de TRH é baseada em sintomas, histórico clínico, exames e perfil de risco individual, não em paridade. A nuliparidade não é contraindicação.
Quanto tempo dura a menopausa?
A menopausa em si é um evento, não uma fase com duração. O período sintomático, chamado de climatério, pode durar de alguns anos a mais de uma década. A intensidade dos sintomas tende a diminuir com o tempo, mas a deficiência hormonal e seus impactos metabólicos persistem enquanto não houver reposição ou adaptação do organismo.
Aviso importante: Este artigo tem caráter informativo e educativo. As informações aqui apresentadas não substituem a consulta médica individualizada. Para diagnóstico, tratamento e orientações específicas para o seu caso, consulte sempre um médico especialista.
Sobre o autor
O Dr. João Paulo Santos é médico em Goiânia com atuação em saúde metabólica, hormonal e qualidade de vida. Com formação em Terapia Intensiva, oferece um olhar clínico diferenciado que trata o corpo como sistema. Atende emagrecimento com protocolo médico real, reposição hormonal, composição corporal e longevidade. Presencial em Goiânia e teleconsulta para todo o Brasil e exterior.